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Resumos / Material

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terça-feira, 20 de julho de 2010

Quadrilha - Carlos Drummond de Andrade

Quadrilha
João amava Teresa que amava Raimundo
Que amava Maria que amava Joaquim que amava Lili
Que não amava ninguém.
João foi para os Estados Unidos, Teresa para o convento,
Raimundo morreu de desastre, Maria ficou para tia,
Joaquim suicidou-se e Lili casou com J. Pinto Fernandes
Que não tinha entrado na história.

Comentário
Depois,  o desacerto amoroso, a inesperada intromissão do humor, a intriga, todo aquele mundo de conflitos sentimentais parece saltar do ritmo descritivo da dança de uma quadrilha. A sensação musical e coreográfica é produzida pela repetição encadeada com o verbo amar. O ritmo do poema é realmente expressivo. Como são difíceis as relações amorosas.
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Prosopopéia - Bento Teixeira Pinto

Bento Teixeira Pinto (Português radicado no Brasil) é o autor de Prosopopéia, que foi a obra que propagou o estilo barroco no Brasil e é, também, a primeira obra literária que aconteceu entre nós, sendo, por isto, um marco da nossa literatura. É poema épico, laudatório a Jorge de Albuquerque Coelho, donatário da capitania de Pernambuco, publicado em 1601, em versos decassílabos, dispostos em oitava rima. Freqüentemente imita os Lusíadas e reflete pouco o ambiente da Colônia. Algumas descrições da natureza como "Descrição do Recife de Pernambuco" e "Olinda Celebrada" não permitem atribuir qualquer sentimento de nativismo ao autor, que se situa entre os autores de pouca expressão do barroco brasileiro.
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Primeiras Estórias - Guimarães Rosa

Resumo Obra publicada em 1962, reúne 21 contos. Trata-se do primeiro conjunto de histórias compactas a seguir a linha do conto tradicional, daí o "Primeiras" do título. O escritos acrescenta, logo após, o termo estória, tomando-o emprestado do inglês, em oposição ao termo História , designando algo mais próximo da invenção, ficção. No volume, aborda as diferentes faces do gênero: a psicológica, a fantástica, a autobiográfica, a anedótica, a satírica, vazadas em diferentes tons: o cômico, o trágico, o patético, o lírico, o sarcástico, o erudito, o popular. As estórias captam episódios aparentemente banais. As ocorrências farejadas através dos protagonistas transformam-se de uma espécie de milagre que surge do nada, do que não se vê, como diz o próprio Guimarães Rosa; "Quando nada acontece, há um milagre que não estamos vendo". Este milagre pode ser então, responsável pela poesia extraída dos fatos mais corriqueiros, pela beleza de pensar no cotidiano e não apenas vivê-lo, pelo amor que se pode ter pelas coisas da terra, pelo homem simples, pelo mistério da vida. Dos "causos " narrados brotam encanto e magia frutos da sensibilidade de um poeta deslumbrado com a paisagem natural e/ou recriada de Minas Gerais. Enredos I - "As margens da alegria". Um menino descobre a vida, em ciclos alternados de alegria (viagem de avião, deslumbramento pela flora, e fauna) e tristeza (morte do peru e derrubada de uma árvore). II - "Famigerado". O jagunço Damázio Siqueira atormenta-se com um problema vocabular: ouviu a palavra "famigerado" de um moço do governo e vai procurar o farmacêutico, pessoa letrada do lugar, para saber se tal termo era um insulto contra ele, jagunço. III - "Sorôco, sua mãe, sua filha". Um trem aguarda a chegada da mãe e da filha de Sorôco, para conduzi - las ao manicômio de Barbacena. Durante o trajeto até a estação, levadas por Sorôco , elas começam surpreendentemente a cantar. Quando o trem parte, Sorôco volta para casa cantando a mesma canção, e os amigos da cidadezinha , solidariamente, cantam junto. IV - "A menina e lá". Nhinhinha possuía dotes paranormais : seus desejos, por mais estranhos que fossem, sempre se realizavam. Isolados na roça, seus parentes guardam em segredo o fenômeno, para dele tirar proveito. As reticentes falas da menina tinham caráter de premonição: por exemplo, o pai reclamara da impiedosa seca. Nhinhinha "quis" um arco-íris, que se fez no céu, depois de alentadora chuva. Quando ela pede um caixãozinho cor-de-rosa com enfeites brilhantes ninguém percebe que o que ela queria era morrer... V - "Os irmão Dagobé". O valentão Damastor Dagobé, depois de muito ridicularizar Liojorge, é morto por ele. No arraial, todos dão como certa a vingança dos outros Dagobé : Doricão , Dismundo e Derval. A expectativa da revanche cresce quando Liojorge comunica a intenção de participar do enterro de Damastor. Para surpresa de todos, os irmãos não só concordam, como justificam a atitude de Liojorge, dizendo que Damastor teve o fim que mereceu. VI - "A terceira margem do rio". Um homem abandona família e sociedade, para viver à deriva numa canoa, no meio de um grande rio. Com o tempo, todos, menos o filho primogênito, desistem de apelar para o seu retorno e se mudam do lugar. O filho, por vínculo de amor, esforça-se para compreender o gesto paterno: por isso, ali permanece por muitos anos. Já de cabelos brancos e tomado por intensa culpa, ele decide substituir o pai na canoa e comunica-lhe sua decisão. Quando o pai faz menção de se aproximar, o filho se apavora e foge, para viver o resto de seus dias ruminando seu "falimento" e sua covardia. VII - "Pirlimpsiquice". Um grupo de colegiais ensaia um drama para apresentá-lo na festa do colégio. No dia da apresentação, há um imprevisto, e um dos atores se vê obrigado a faltar. Como não havia mais possibilidade de se adiar a apresentação, os adolescentes improvisam uma comédia, que é entusiasticamente bem recebida pela platéia. VIII - "Nenhum, nenhuma". Uma criança, não se sabe se em sonho ou realidade, passa férias numa fazenda, em companhia de um casal de noivos, de um homem triste e de uma velha velhíssima, de quem a noiva cuidava. O casal interrompe o noivado, e o menino, que conhecera o Amor observando-os, volta para a casa paterna. Lá chegando, explode sua fúria diante dos pais ao notar que eles se suportavam, pois tinham transformado seu casamento num desastre confortável. IX - "Fatalidade". Zé Centeralfe procura o delegado de uma cidadezinha, queixando-se de que Herculinão Socó vivia cantando sua esposa. A situação tornara-se tão insuportável que o casal mudara de arraial. Não adiantou: o Herculinão foi atrás. O delegado, misto de filósofo, justiceiro e poeta, depois de ouvir pacientemente a queixa, procura o conquistador e, sem a mínima hesitação, mata-o, justificando o fato como necessário, em nome da paz e do bem-estar do universo. X - "Seqüência". Uma vaca fugitiva retorna a sua fazenda de origem. Decidido a resgatá-la, um vaqueiro persegue-a com incomum denodo. Ao chegar à fazenda para onde a vaca retornara, o vaqueiro descobre que havia outro motivo para sua determinação: a filha do fazendeiro, com quem o rapaz se casa. XI - "O espelho". Um sujeito se coloca diante de um espelho, procurando reeducar seu olhar. apagando as imagens do seu rosto externo. A progressão desses exercícios lhe permite, daí a algum tempo, conhecer sua fisionomia mais pura, a que revela a imagem de sua essência. XII - "Nada e a nossa condição". O fazendeiro Tio Man 'Antônio, com a morte da esposa e o casamento das filhas, sente-se envelhecido e solitário. Decide vender o gado, distribuindo o dinheiro entre as filhas e genros. A seguir, divide sua fazenda em lotes e os distribui entre os empregados, estipulando em testamento uma condição que só deveria ser revelada quando morresse. Quando o fato ocorre, os empregados colocam seu corpo na mesa da sala da casa-grande e incendeiam a casa: a insólita cerimônia de cremação era seu último desejo. XIII - "O cavalo que bebia cerveja". Giovânio era um velho italiano de hábitos excêntricos: comia caramujo e dava cerveja para cavalo. Isso o tornara alvo da atenção do delegado e de funcionários do Consulado, que convocam o empregado da chácara de "seo Giovânio", Reivalino, para um interrogatório. Notando que o empregado ficava cada vez mais ressabiado e curioso, o italiano resolve então abrir a sua casa para Reivalino e para o delegado: dentro havia um cavalo branco empalhado. Passado um tempo, outra surpresa: Giovânio leva Reivalino até a sala, onde o corpo de seu irmão Josepe , desfigurado pela guerra, jazia no chão. Reivalino é incumbido de enterrá-lo, conforme a tradição cristã. Com isso, afeiçoa-se cada vez mais ao patrão, a ponto de ser nomeado seu herdeiro quando o italiano morre. XIV - "Um moço muito branco". Os habitantes de Serro Frio, numa noite de novembro de 1872, têm a impressão de que um disco voador atravessou o espaço, depois de um terremoto. Após esses eventos, aparece na fazenda de Hilário Cordeiro um moço muito branco, portando roupas maltrapilhas. Com seu ar angelical, impõe-se como um ser superior, capaz de prodígios: os negócios de Hilário Cordeiro, o fazendeiro que o acolheu, têm uma guinada espantosamente positiva. Depois de fatos igualmente miraculosos, o moço desaparece do memo modo que chegara. XV - "Luas-de-mel". Joaquim Norberto e Sa- Maria Andreza recebem em sua fazenda um casal fugitivo, versão sertaneja de Romeu e Julieta. Certos de que os capangas do pai da moça virão resgatá-la, todos se preparam para um enfrentamento: a casa da fazenda transforma-se num castelo fortificado. É nesse clima de tensão que se celebra o casamento dos jovens, a que se segue a lua-de-mel, que acontece em dose dupla: dos noivos e do velho casal de anfitriões, cujo amor fora reavivado com o fato. Na manhã seguinte, a expectativa se esvazia com a chegada do irmão da donzela, que propõe solução satisfatória para o caso. XVI - "Partida do audaz navegante". Quatro crianças, três irmãs e um primo, brincam dentro de casa, aguardando o término da chuva. A caçula, Brejeirinha , brinca com o que lhe dava mais prazer: as palavras. Inventa uma estória do tipo Simbad , o marujo, que ganha novos elementos quando todos vão brincar no quintal, à beira de um riacho. Liberando sua fantasia, Brejeirinha transforma um excremento de gado no "audaz navegante", colocando-o para navegar riacho abaixo. XVII - "A benfazeja". Mula- Marmela era mulher de Mumbungo , sujeito perverso que se excitava com o sangue de suas vítimas. Esse vampiro tinha um filho, Retrupé , cujo prazer só diferia do do pai quanto à faixa etária das vítimas: preferia as mais frescas. Apesar de amar seu homem e ser correspondida, Mula-Marmela não hesitara em matá-lo e depois cegar Retrupé, de quem se torna guia. Passado algum tempo, resolve assassiná-lo: percebe que esta seria a única maneira de refrear o instinto de lobisomem do rapaz. XVIII - "Darandina". Um sujeito bem- vestido rouba uma caneta, é surpreendido e, para escapar dos que o perseguem, escala uma palmeira. Uma multidão acompanha atentamente os esforços das autoridades, que procuram convencer o rapaz a descer. Resistindo, ele diz frases desconexas e tira toda a roupa, revelando notável equilíbrio físico. A sessão de nudismo leva um médico a nova tentativa de diálogo. Ao se aproximar, o médico percebe que o sujeito voltara à normalidade e que, envergonhado, pedia socorro. A multidão, sentindo-se ludibriada, não aceita essa sanidade repentina e se dispõe a linchá-lo. Sentindo o risco, o sujeito berra um grito de louvor à liberdade, motivo bastante para a multidão ovacioná-lo e carregá-lo nos ombros. XIX - "Substância". O fazendeiro Sionésio apaixona-se por sua empregada Maria Exita , que fora abandonada pela família e criada pela peneireira Nhatiaga . Na fazenda, o ofício de Maria Exita era o de quebrar polvilho, trabalho duro mas que a moça realizava com prazer e competência. Embora preocupado com a ascendência da moça, Sionésio sente que a paixão é maior que o preconceito e pede-a em casamento. XX - "Tarantão, meu patrão". O fazendeiro João - de - Barros - Dinis - Robertes tem uma surpreendente explosão de vitalidade em sua velhice caduca. Como se fora um Quixote, determina-se a matar seu médico: o Magrinho, seu sobrinho - neto. Ao longo da viagem rumo à cidade, recruta um bando de desocupados, ciganos e jagunços, que acatam sua liderança, pelo carisma natural do velho. Chegando à "frente de batalha", Tarantão percebe que era dia de festa: uma das filhas de Magrinho fazia aniversário. O susto inicial, provocado pela invasão do "exército", transforma-se em alívio quando o velho discursa, dizendo de seu apreço pela família e pelos novos amigos, colecionados ao longo da última cavalgada. XXI - "Os cimos". O menino da primeira estória revela agora a face do sofrimento, causado pela doença da Mãe, fato que apressa sua viagem de volta à casa paterna. Os últimos dias de férias são de preocupação. O Menino só relaxava quando via, todas as manhãs e sempre à mesma hora, um tucano se aproximar da casa dos rios, onde se hospedava. Num processo de sublimação, desencadeado pela beleza da ave, o Menino ganha energia para resistir e para transferir à Mãe uma carga de fluidos mentais positivos, que lhe permitam superar a doença. Quando o Tio o procura para comunicar a melhora da Mãe, o Menino experimenta momentos de êxtase, pois só ele sabia do motivo da cura. Foco Narrativo As indicações feitas a seguir são pontuadas com os algarismos que indicam a ordem de publicação de cada estória no livro. Assim, dez delas têm o foco relato centrado na terceira pessoa: I-" As margens da alegria"; II-" Famigerado" ;III- "Sorôco, sua mãe, sua filha"; IV-"A menina de lá"; V-" Os irmãos Dagobé"; VIII-" Nenhum , nenhuma"; X-"Seqüência "; XIV-"Um moço muito branco"; XIX-" Substância" e XXI-"Os cismos". As onze estórias restantes são relatadas em primeira pessoa: VI-"A terceira margem do rio"; VII- " Pirlimpsiquice"; IX-" Fatalidade "; XI-"O espelho"; XII- "Nada e a nossa condição"; XIII-"O cavalo que bebia cerveja"; XV-" Luas de mel"; XVI-" Partida do audaz navegante"; XVII-"A benfazeja"; XVIII-" Darandina " e XX-"Tarantão, meu patrão". Dessas onze estórias, apenas duas apresentam o narrador como protagonista: "O espelho" e "Pirlimpsiquice"; nas outras, o relato é feito por um espectador privilegiado, que presencia a ação e registra suas impressões a respeito do que assiste. O narrador pode ser também um personagem secundário da estória, com laços de parentesco ou e amizade com o protagonista. Quanto ao emprego dos tempos verbais, nota-se que, na maior parte das estórias, o relato se faz através de uma mistura do pretérito perfeito com o pretérito imperfeito do indicativo. Espaço A maioria das estórias se passa em ambiente rural não especificado, em sítios e fazendas; algumas têm como cenário pequenos lugarejos, arraiais ou vilas. Os ambientes são apresentados com poucos mas precisos toques: moldura de altos morros, vastos horizontes, grandes rios, pastos extensos, escassas lavouras. Duas estórias, no entanto - "O espelho" e "Darandina" -, transcorrem em cidades, pressupostas até como grandes centros urbanos, pelo fato de mencionarem a existência de secretarias de governo, hospício, corpo de bombeiros, jornalistas, parques de diversões, prédios de repartições públicas e outros serviços tipicamente urbanos.Personagens Embora variem muito quanto à faixa etária e experiência de vida, as personagens se ligam por um aspecto comum: suas reações psicossociais extrapolam o limite da normalidade. São crianças e adolescentes superdotados, santos, bandidos, gurus sertanejos, vampiros e, principalmente, loucos: sete estórias apresentam personagens com este traço
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Poesias - Guilherme de Almeida

Canção do Expedicionário -
Letra: Guilherme de Almeida - Música: Spartaco Rossi
Você sabe de onde eu venho ?
Venho do morro, do Engenho,
Das selvas, dos cafezais,
Da boa terra do coco,
Da choupana onde um é pouco,
Dois é bom, três é demais,
Venho das praias sedosas,
Das montanhas alterosas,
Dos pampas, do seringal,
Das margens crespas dos rios,
Dos verdes mares bravios
Da minha terra natal.
Por mais terras que eu percorra,
Não permita Deus que eu morra
Sem que volte para lá;
Sem que leve por divisa
Esse "V" que simboliza
A vitória que virá:
Nossa vitória final,
Que é a mira do meu fuzil,
A ração do meu bornal,
A água do meu cantil,
As asas do meu ideal,
A glória do meu Brasil.
Eu venho da minha terra,
Da casa branca da serra
E do luar do meu sertão;
Venho da minha Maria
Cujo nome principia
Na palma da minha mão,
Braços mornos de Moema,
Lábios de mel de Iracema
Estendidos para mim.
Ó minha terra querida
Da Senhora Aparecida
E do Senhor do Bonfim!
Por mais terras que eu percorra,
Não permita Deus que eu morra
Sem que volte para lá;
Sem que leve por divisa
Esse "V" que simboliza
A vitória que virá:
Nossa vitória final,
Que é a mira do meu fuzil,
A ração do meu bornal,
A água do meu cantil,
As asas do meu ideal,
A glória do meu Brasil.
Você sabe de onde eu venho ?
E de uma Pátria que eu tenho
No bôjo do meu violão;
Que de viver em meu peito
Foi até tomando jeito
De um enorme coração.
Deixei lá atrás meu terreno,
Meu limão, meu limoeiro,
Meu pé de jacaranda,
Minha casa pequenina
Lá no alto da colina,
Onde canta o sabiá.
Por mais terras que eu percorra,
Não permita Deus que eu morra
Sem que volte para lá;
Sem que leve por divisa
Esse "V" que simboliza
A vitória que virá:
Nossa vitória final,
Que é a mira do meu fuzil,
A ração do meu bornal,
A água do meu cantil,
As asas do meu ideal,
A glória do meu Brasil.
Venho do além desse monte
Que ainda azula o horizonte,
Onde o nosso amor nasceu;
Do rancho que tinha ao lado
Um coqueiro que, coitado,
De saudade já morreu.
Venho do verde mais belo,
Do mais dourado amarelo,
Do azul mais cheio de luz,
Cheio de estrelas prateadas
Que se ajoelham deslumbradas,
Fazendo o sinal da Cruz !
Por mais terras que eu percorra,
Não permita Deus que eu morra
Sem que volte para lá;
Sem que leve por divisa
Esse "V" que simboliza
A vitória que virá:
Nossa vitória final,
Que é a mira do meu fuzil,
A ração do meu bornal,
A água do meu cantil,
As asas do meu ideal,
A glória do meu Brasil.

Essa que eu hei de Amar
 
Essa que eu hei de amar perdidamente um dia
Será tão loura e clara , e vagarosa e bela
Que eu pensarei que é o sol que vem, pela janela
Trazer luz e calor a esta alma escura e fria.
E quando ela passar, tudo o que eu não sentia
Da vida há de acordar no coração , que vela...
E ela irá como o sol, e eu irei atrás dela
Como sombra feliz – Tudo isso eu me dizia
Quando  alguém me chamou . Olhei :um vulto louro
E claro , e vagaroso, e belo, na luz de ouro
Do poente, me dizia adeus, como um sol triste...
E falou-me de longe. “Eu passei a teu lado,
Mas ias tão perdido em teu sonho dourado,
Meu pobre sonhador, que nem sequer me viste!”

Música Eterna
"Uma bigorna canta.
É o órgão que acompanha a missa do trabalho...
Chispa em brasa o metal...Tomba e retomba o malho...
Dos homens feitos de aço um clamor se levanta...
Da poeira do carvão da negra usina em chama,
o canto do progresso apaga a voz que clama,
matando-a na garganta!"

Rua
A rua mastiga
os homens: mandíbulas
de asfalto, argamassa,
cimento, pedra e aço.
A rua deglute
os homens: e nutre
com eles seu sôfrego,
onívoro esôfago.
A rua digere
os homens: mistério
dos seus subterrâneos
com cabos e canos.
A rua dejecta
os homens: o poeta,
o agiota, o larápio,
o bêbado e o sábio.

Rondó do Muito Triste
Da triste vida que eu vivo
o menos triste é a tristeza.
Muito mais triste é a incerteza,
essa falta de motivo
para viver como eu vivo
só de surpresa em surpresa,
cada vez mais sendo presa
das coisas de que me privo
e sujeito, embora esquivo,
às ordens da natureza:
causadora, com certeza,
desse gosto negativo
da triste vida que eu vivo.

A Hóspede
Não precisa bater quando chegares.
Toma a chave de ferro que encontrares
sobre o pilar, ao lado da cancela,
e abre com ela
a porta baixa, antiga e silenciosa.
Entra. Aí tens a poltrona, o livro, a rosa,
o cântaro de barro e o pão de trigo.
O cão amigo
pousará nos teus joelhos a cabeça.
Deixa que a noite, vagarosa, desça.
Cheiram a relva e sol, na arca e nos quartos,
os linhos fartos,
e cheira a lar o azeite da candeia.
Dorme. Sonha. Desperta. Da colméia
nasce a manhã de mel contra a janela.
Fecha a cancela
e vai. Há sol nos frutos dos pomares.
Não olhes para trás quando tomares
o caminho sonâmbulo que desce.
Caminha - e esquece.

Segunda Canção do Peregrino
Vencido, exausto, quase morto,
cortei um galho do teu horto
e dele fiz o meu bordão.
Foi minha vista e foi meu tacto:
constantemente foi o pacto
que fez comigo a escuridão.
Pois nem fantasmas, nem torrentes,
nem salteadores, nem serpentes
prevaleceram no meu chão.
Somente os homens, que me viam
passar sozinho, riam, riam,
riam, não sei por que razão.
Mas, certa vez, parei um pouco,
e ouvi gritar:-"Aí vem o louco
que leva uma árvore na mão!"
E, erguendo o olhar, vi folhas, flores,
pássaros, frutos, luzes, cores...
-Tinha florido o meu bordão.

O Manto Cor do Tempo
Eis que venho de longe e sou tão pobre!
Não acreditas que eu apenas tenha
o manto cor do tempo, que me cobre.
É um trapo. Mas nas dobras da estamenha,
que andou de sol a sol, de lua a lua,
É bem possível que comigo venha,
preso aos ásperos fiapos de lã crua,
um pouco de que é o mundo e do que é a vida:
-laivos de céu azul; poeira da rua;
restos de arco-íris; pétala caída;
penugem que escapou à fuga alada
e alta das estações; fímbria perdida
do véu de noiva de uma estrela aluada;
farrapos de neblina e de folhagem;
migalhas de sol-posto e de alvorada;
sobras levianas de libertinagem
do luar...-Venho de longe e sou tão pobre!
Mas trago a eternidade na miragem
do manto cor do tempo, que me cobre.
 

A Lição
Pelos remendos do meu manto pobre,
pela moeda de cobre,
pela côdea de pão,
conhecerás o mundo que não cabe
nos livros, e não sabe
sair do coração.
Nos remendos terás um mapa-múndi:
a carta que nos funde,
que do homem faz o irmão;
o cobre há de dizer, mais que a palavra,
que o bem não se azinhavra
se vai de mão em mão;
a côdea mostrará que a crosta dura
da terra é uma fartura
para os que têm e dão.
Pelos remendos do meu manto pobre,
pela moeda de cobre,
pela côdea de pão,
conhecerás o mundo que não cabe
nos livros, e não sabe
sair do coração.
                Guilherme de Almeida teve publicados vinte e dois livros de poesia, seis livros de prosa e dois conjuntos de obras e antologia, um deles com seis volumes. Traduziu quatro livros, três dos quais, do francês e um deles do grego.
Segundo seus biógrafos, ele não se preocupou em publicar um livro de crônicas, que são milhares, em quarenta anos de atividade jornalística.
                Mas vamos a, apenas, uma delas:
Creio

Para que ninguém me julgue, como eu me julgo, um cético...
do grego "skeptikós", que significava aquele que costuma examinar e refletir, e que, paradoxalmente, passou a significar aquele que de tudo duvida...resolvi revelar o meu "Credo"íntimo, que é o seguinte:
Creio em mim mesmo, só pelo gosto de contrariar um pouco os meus credores;
creio no meu sense of humour, sem o qual eu jamais seria capaz de me ver de cuecas ao espelho e, principalmente, de votar em eleições;
creio nos meus inimigos íntimos, fatores máximos de minha popularidade; e nos meus amigos figadais, fatores mínimos das minhas indiscrições;
creio na imortalidade (apesar da tenaz negativa sustentada pelas Academias) da alma;
creio no meu coração de ouro, o qual, entretanto, nunca conseguiu uma avaliação decente no guichê do Monte Socorro;
creio no meu bom e fiel uísque escocês, que justifica, até certo ponto, a existência do meu fígado, do meu médico e do meu fornecedor;
creio no Bem e no Mal, na Verdade e na Mentira, no Belo e no Feio, no Triste e no Alegre, enfim, em todos os antônimos, porque acredito no meu alfaiate e no direito e avesso das lãs que ele corta e cose;
creio nos meus sonhos, que já têm feito muita gente boa acertar no "bicho" e nem sequer me dizer "Muito Obrigado!";
creio na minha perfeita insensatez, que os homens sensatos tentam em vão arremedar;
creio no meu indiscutível bom-gosto: única virtude que reconhecem em mim algumas mulheres que admiro;
e creio, afinal, inabalavelmente creio neste meu incrível cinismo de acreditar ainda em alguma coisa neste mundo destes tempos entre estes homens.
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Poesia Atemporal - Manuel Bandeira

A poesia está na vida; o poeta é aquele que é sensível o suficiente para captá-la. No momento da percepção, fronteiras de tempo e espaço deixam de existir; o Mundo Sensível é tão somente o ponto de partida para o poeta alcançar o Inteligível. Para tanto, nem sempre é necessário haver processos sofisticados. A vida é esse cotidiano mesmo, feito de vida e morte, tristeza e alegria, captado e guardado no arquivo de memória. "Profundamente" é um desses flagrantes captados por Bandeira, poeta da simplicidade. Na memória do eu-poético, não há delimitação de tempo e espaço; ambos se misturam num único instante, aqui transformado em instante poético. Interrompendo o curso natural das coisas, empreende uma viagem na memória, resgatando, num tempo longínquo, a infância ("Quando eu tinha seis anos"), cujos elementos já se evidenciam na primeira estrofe: "noite de São João", "bombas luzes de Bengala", "Ao pé das fogueiras acesas". As lembranças trazem elementos sugestivos de alegria e de luz: noite iluminada por "luzes de Bengala" e "fogueiras acesas". Davi Arrigucci Jr., em sua obra Humildade, Paixão e Morte, devido a esse recurso utilizado por Bandeira, afirma que este poema é "fortemente imagético e pictório"; as lembranças surgem de cenas vivenciadas no passado. Assim, o que traz saudade são os elementos mais simples e cotidianos do interior. Bandeira resgata a sua infância em Pernambuco (procedimento também presente no poema "Evocação do Recife", onde as mesmas pessoas evocadas aparecem). Acerca disso, em entrevista dada a Pedro Bloch, o autor afirma: "Do Recife tenho quatro anos de existência consciente, mas ali está a raiz de toda a minha poesia. Quando comparo esses quatro anos de meninice a quaisquer outros quatro anos de minha vida é que vejo o vazio dos últimos." Não são apenas esses os índices do substrato autobiográfico do poeta; as personagens da penúltima estrofe também são reveladores - "Totônio Rodrigues", "Tomásia", "Rosa". Este tempo da duração ("la durée") - segundo terminologia de Benedito Nunes, em sua obra O Tempo na Narrativa - vem numa única avalanche de lembranças, como se, nesse tempo de memória, não houvesse possibilidade de "organizar" as coisas, linearmente falando. Isto é evidenciado pela enumeração caótica - tão característica do Modernismo - reaproveitada pelo poeta; o eu-poético não usa a vírgula no poema inteiro, nem uma só vez (as únicas formas de pontuação utilizadas são o ponto final e a interrogação, encerrando as etapas das reflexões); em todo o percurso reflexivo, as lembranças amontoam-se em "flashes" de memória: "Havia alegria e rumor Estrondos de bombas luzes de Bengala Vozes cantigas e risos." Esse processo se estende também à enumeração de ações, pois os verbos, isolados em versos diferentes, demarcam o ritmo do texto: "Dançavam / Cantavam / E riam". Toda essa enumeração aparece disposta em verbos no pretérito, confirmando a visão do passado, como foi antes mencionado: "adormeci", "Havia", "despertei", etc.  Desta maneira, os tempos verbais ligam-se às lembranças da infância num tempo de duração, o tempo, segundo Benedito Nunes, realmente vivenciado, tão saudosamente, que, num movimento de retrocesso, o passado transforma-se em "ontem". Ao longo da viagem no tempo, a alegria vai ficando para trás. Ao acordar, "no meio da noite", os ruídos e vozes já não existem ("Não ouvi mais vozes nem risos"); a única lembrança sensorial existente é visual ("Apenas balões / Passavam errantes"), mas é silenciosa ("Silenciosamente / Apenas de vez em quando / O ruído de um bonde / Cortava o silêncio"). Toda essa saudade faz aflorar o sentimento de solidão: sozinho, ele vê balões errantes; na ausência de ruídos, também revela-se a ausência dos entes queridos ("Onde estavam os que há pouco / Dançavam / Cantavam / E riam / Ao pé das fogueiras acesas?"). Davi Arrigucci Jr. acrescenta o fato de que a ênfase à solidão é dada pelos próprios termos escolhidos: "Torna-se inevitável uma ênfase sugestiva sobre os termos separados, cuja ressonância semântica aumenta com o isolamento, como é o caso, além do advérbio ‘silenciosamente’, do poderoso ‘errantes’, cujo significado se intensifica e se expande pela suspensão final do verso, acompanhando a morosa subida dos balões com a nota profunda de uma ilimitada e desgarradora incerteza, fazendo com que esses pontos luminosos, últimos sinais de vida da festa, sejam vistos em câmera lenta, perdendo-se silenciosa e definitivamente na noite." Todo o eixo temático do poema liga-se ao modo de trabalhar o tempo: o passado, transformado em "durée". Dessa transformação, a consciência desperta: "Quando eu tinha seis anos / Não pude ver o fim da festa de São João / Porque adormeci", em contraposição a "Onde estão todos eles? - Estão todos deitados / Dormindo / Profundamente". Enfim, o desígndorio, gerado pelo fluxo de consciência: no passado, ele adormeceu, enquanto todos estavam na festa; hoje, eles adormeceram, enquanto ele se mantém desperto. É a consciência de estar deslocado, em desarmonia com o restante. O verbo utilizado - "adormecer" - também muda de acepção ao longo do poema. De início, em sentido denotativo, significa "estar dormindo"; no final, conotativamente, liga-se à idéia de morte, o que se comprova na ausência das pessoas pertencentes ao universo infantil já citadas. "Profundamente" é a palavra que acompanha todo o poema: encontra-se no título, no meio e também o encerra. É um advérbio que sugere não apenas modo, mas, principalmente, intensidade. Mesmo de forma desarmoniosa, a intensidade é elevada, o que reforça, novamente, o conceito da duração. Reforça-se, assim, a vivência que envolve o processo das reminiscências: é como, na poesia, a morte torna-se vida na transmutação poética do instante.
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domingo, 11 de julho de 2010

Perto do Coração Selvagem - Clarice Lispector

Em Perto do Coração Selvagem, Joana expressa, por fluxos de consciência, sua vida interior, contrapondo suas experiências de menina às de adulta, mergulhando ora no passado, ora no presente, segundo o fio condutor da memória. A infância viveu ao lado do pai, a quem confiou, por meio de brincadeiras, suas incertezas infantis. Era sonhadora, contemplativa e, inconscientemente, provocava os adultos com suas questões e opiniões. Escrevia versos, tinha medo de dormir sozinha e sentia muita pena das galinhas. Para ela, estas nem sabiam que iam morrer. A mãe, Elza, morreu, quando ela ainda era muito pequena; Conhecia-a pelas descrições do pai. O tempo junto a este também foi curto, morreu quando ela ainda era menina. Órfã, Joana vai morar com os tios. Logo nos primeiros dias de convívio, a severidade na casa se revela hipócrita, despertando-lhe uma visão repugnante daquilo que a esperaria no futuro; Eles fingem condoer-se da sua infelicidade. A relação entre sobrinha e tia é tensa, mas aceitável; a presença da menina a sufocava. Um dia ao acompanhar a tia às compras, como num teste para si mesma e causar espanto aos outros, Joana roubou um livro, fazendo com que a realidade de sua relação com aquela família viesse à tona. Desabonando esse tipo de conduta, a tia pediu ao marido que encaminhasse a menina a um colégio interno, onde as diferenças, entre Joana e o mundo que a cercava, iriam se acentuar. Essa inadaptabilidade aos lugares, a constante vocação para o mal e o desconhecimento de si mesma faziam parte do processo de descobrir-se, encontrar a razão de ser de sua existência. Nesse processo, surge um professor casado, que lhe dá ouvidos, aconselhando-a, na medida do possível. Ele torna-se seu amor adolescente, e Joana, sentindo uma espécie de inveja da esposa, sofre as agruras dessa primeira paixão. Desligada do internato, Joana casou-se com Otávio, que divagava tão intensamente quanto ela. Embora casado, mantinha um relacionamento amoroso com, Lídia, sua ex-noiva, a quem engravidou. Isso aparentemente seria a causa da separação entre Otávio e Joana, além da diferença de temperamentos, expectativa de vida e compreensão de mundo do casal. Joana, que sabia tudo sobre o relacionamento dos dois, abordou a situação naturalmente, sem escândalo ou drama passional. No entanto, no seu interior, esse fato lhe suscitava muitas reflexões, sendo uma delas o projeto de ter um filho com o marido, antes de devolvê-lo à rival. Isso não se realizou e Otávio partiu, deixando uma suposta promessa de volta no ar. Depois da separação, um homem desconhecido passou a seguir Joana, durante algum tempo. Um certo dia, ela se viu na casa desse estranho e, sem sequer saber-lhe o nome, desejando conhecê-lo por outras fontes e por outros caminhos, com ele teve alguns encontros. O desconhecido que, para ela, era mais um salto para sua auto-investigação, um dia, acabou partindo. Ela, também, embarcou sozinha para uma viagem não muito bem definida, dando a entender que, naquele momento, teria condições de se resgatar.
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Perseguição e Cerco a Juvêncio Gutierrez - Tabajar


A obra de Tabajara Ruas se caracteriza pela desconstrução, não aquela preconizada pelos grupos pós-modernistas, voltados pela homogeinização do discurso, mas a que dá nova forma a realidades assumidas sem muita crítica.
Aspectos estruturais
O romance é narrado em primeira pessoa, ou seja, o narrador é protagonista da ação. Trata-se, todavia, de romance de cunho memorialístico: o narrador, hoje, conta fatos relativos a seu passado. Este passado resume-se, no eixo principal do livro, em um período de pouco mais de 24 horas, com coordenadas de tempo e espaço bem definidas: o ano é de 1957 e a localidade é Uruguaiana, na fronteira gaúcha com a Argentina. Assim, o narrador - cujo nome em nenhum momento é revelado - relembra os seus treze anos de idade e os acontecimentos que circundam o retorno de Juvêncio Gutierrez, seu tio, irmão de sua mãe, desde a noite de sexta-feira até a madrugada de domingo. Em meio a esta história principal, o narrador, vez por outra, insere passagens de outras épocas, ora em situações em que ele era mais novo, ora ele sendo já adulto, trinta anos depois. O romance é dividido em três capítulos. No primeiro, a situação inicial é apresentada: a tensão que toma conta do protagonista - e da cidade - como o anúncio do retorno do contrabandista Juvêncio Gutierrez; o capítulo encerra antes do jogo de futebol decisivo na escola. No segundo, ocorre a final do campeonato, o cerco a Juvêncio Gutierrez na estação e - surpresa - a escapada inicial do contrabandista. No terceiro e último, há a descoberta da morte de Juvêncio, o impasse entre o pai do protagonista e o delegado pela liberação do corpo e a lição definitiva aprendida pelo garoto.
Enredo
Capítulo 1 
Conforme dito acima, o protagonista conta que estava "no inverno dos meus treze anos", vivia com a família em Uruguaiana, cidade, naquela época, com 30 mil habitantes. O narrador anuncia que seu tio Juvêncio Gutierrez era contrabandista e havia fugido para a Argentina. Através de um amigo do tio, "seu Domício", a família fica sabendo, numa sexta-feira à noite, chuvosa, que Juvêncio Gutierrez voltaria no trem das três da tarde do dia seguinte. E o dia seguinte, sábado (o último de setembro de 1957), era também o dia da decisão do campeonato de futebol do colégio onde estudava o narrador. Ao acordar, pela manhã, já sentia ansiedade pelo jogo. Neste momento, duas histórias correm paralelas na vida do narrador; de um lado, a preocupação com a partida, o encontro com os colegas de time - Bolão e Feito às Pressas; de outro, a preocupação com a chegada do tio, a promessa do delegado Facundo de eliminá-lo, o comentário que transita pela cidade a respeito da chegada do contrabandista. o narrador fala também de sua paixão por Beatriz. Entre outras informações, há a história, ainda sem esclarecimentos, de um verão, no qual o tio foi ferido, episódio que causou perturbação em seu pai. Em rápida quebra da seqüência cronológica, o narrador pula trinta anos, é adulto, e bebe no bar Viscaya, no bairro Petrópolis de Porto Alegre, com o irmão Vladimir, "mais gordo e mais triste".
Capítulo 2
A narrativa encontra-se nos momentos que antecedem a partida decisiva. O irmão Arno, professor, dá a preleção. Enquanto se dirige ao campo, caminhando, o narrador enxerga, ao longe, o trem carregador de gado, vindo de Curuzu Quatiá, Argentina, aproximando-se da fronteira. O jogo está para começar e o menino tira da cabeça a chegada do tio, a armadilha em que ele certamente cairá. Começa o jogo, saída para o adversário ("terceiro Científico"), o narrador olha para os lados do trem, a bola vai para seu lado, ele, entre o trem e a jogada, vacila...Gooool do adversário. Seu colega Bolão exige concentração. Assim, o narrador vai alternando momentos da partida (faltas violentas, bolas na trave, escapadas), com a chegada do trem na estação brasileira, a esta altura repleta de brigadianos. Termina o jogo com a derrota do time do narrador por 1 a 0. Seu colega Bolão desafia o capitão adversário, Bento, para uma brigas à noite, na praça. Finda a tensão do jogo, permanece a expectativa quanto ao que aconteceria com o tio. A cidade comenta: "Teu tio tá enrascado, guri", diz o taxista. Sabe-se, então, que Juvêncio Gutierrez está cercado no armazém da estação, mas não se entrega. Em casa, a mãe do menino e sua amiga Ester (ex-namorada de Juvêncio Gutierrez) aguardam, em alta tensão, o desenrolar dos acontecimentos. Aqui, o menino confessa uma paixão secreta pôr Ester. Já estamos no final da tarde. O cerco é transmitido pelo rádio. A família vai até a estação. A polícia vai invadir o armazém. Os brigadianos invadem e Juvêncio Gutierrez não está mais lá. O delegado Facundo ameaça a família. No final do capítulo, sabe-se que, até o casamento dos pais do narrador, Juvêncio Gutierrez era homem honesto. Semanas após, larga tudo e vira contrabandista.
Capítulo 3
À noite, o narrador vai ao cinema. Na saída, encontra Beatriz, sai com ela, ficam sozinhos, trocam carícias. Quando vai à praça para o duelo Bolão/Bento já há notícias da descoberta de Juvêncio Gutierrez. Houve tiroteio. De repente, os cavalos do Cel. Fabrício, que vinham no mesmo trem do tio, correm soltos pela praça. Fica esclarecido, numa digressão do narrador, que o episódio do ferimento do tio, ocorrido em um verão passado, ocasionou perturbação no pai porque a mãe foi para o interior tratar de Juvêncio Gutierrez. Enquanto isso, o narrador vai ao Cabaré do Ivo, mas continua com a cabeça no tio. Revelam-se, aqui, o caso do tio com Ester e a figura do Ivo , dono do cabaré, como "protetor dos pobres", no estilo dos traficantes de hoje. No cabaré, chega Martha Rocha, o homossexual, anunciando um "baita tiroteio". Ninguém sabe - até hoje - o que realmente aconteceu. Aqui, o narrador afirma que volta à sua infância nos momentos de mediocridade do mundo. Voltando para casa, o menino percebe luzes "insuportáveis", o choro de Ifigênia. Ele pressente a morte. Em meio ao silêncio, o pai resolve ir buscar o corpo. A mãe reage, há discussão. O pai desiste, para mais tarde, retomar a idéia. O narrador-menino vai junto. No necrotério, recusam-se a entregar o corpo de Juvêncio Gutierrez. "Só com ordens do delegado".
O pai vai ao delegado, o qual demonstra autoritarismo e prepotência. O que o delegado Facundo não espera, acontece: o pai do menino resolve enfrentá-lo. A tensão chega ao limite, quando o delegado ameaça atirar e o pai o desafia a fazê-lo.
O coronel Fabrício, criador de cavalos, acomoda: "Entrega o corpo, Tilico"(esta é uma passagem genial: dizendo ao delegado para entregar o corpo, e ainda chamando-o pelo apelido de Tilico, o pecuarista mostra quem é que, verdadeiramente, manda).
Assim carregam o corpo, crivado de balas, para velório e enterro. No trecho final da ação, o rengo Maidana, um dos amigos de Juvêncio Gutierrez, convida o menino para ir ao Bar do Átila. Este recusa. A reflexão do narrador adulto é a de que Maidana o convidava para o mundo de Juvêncio Gutierrez, simbolizado no bar do Átila. Não é o mundo do narrador. Mas, reconhece, o episódio Gutierrez foi decisivo - um aprendizado - na trajetória de sua vida.
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